22 de Nov de 2009

E o domingo devia ter o sabor demorado de um bolo de tâmaras na boca e um sorriso nos lábios, um filme, um chá de menta a fumegar numa chávena que aquece as mãos, já de si, numas luvas grossas sem dedos, a coragem de pegar num livro para lhe saber o fim - coisa que muitas vezes evito, empilhando volumes, com desejo de mais vida, à cabeceira.


prefiro não abrir o caderno onde escrevinhei a ressaca
à frente do rio durante horas e adoeci
para te falar das águas que sobem pelo casco do dia
e da falta que me faz estares nesse lugar
onde ambos não estamos nem nunca estivemos
e que a peliça clara não chega para abrigar
da hora de ponta por onde passa toda a gente
menos tu e eu. eu também não estou ali,
mas na margem do nosso sétimo dia.
a pressa por que fui tomada imobiliza-me
como a ponte desatravessada
onde já fui carro num desastre até ao sul.
suponho que o coração cintou a cabeça
de cristo, do lado de lá, no minuto em que chegaste.
podia não tornar o poema nisto,
afinal a tua chegada representa algo palpável,
algo bom, como um líquido que sobe
pela palhinha e nos inunda de felicidade,
mas depois acaba e o que resta
é aquele gomo de limão nos destroços gélidos
no fundilho cristalino das memórias.
espreito a paisagem, volvo para o cigarro,
confirmo que o sétimo dia se cobriu
como seria esperado pelo desenho de noé sendas.

será preciso lembrar que eu,
ao contrário disto, tenho um corpo
para além dos olhos, das mãos, da boca?



.












fotografia de Filipa Castro.

21 de Nov de 2009

quando pensava no seu nome não sabia
se havia de ter frio ou calor,
e era com desconfiança que olhava
para um lado e para o outro do pensar.
também aí não sabia se havia de a querer ou não encontrar
naqueles suspensórios com que suspendera o ar no concerto
para de lá se evolarem como argolinhas de fumo estereofónico.

na dúvida, passou a olhar apenas em frente,
franzindo o sobrolho para a inominabilidade do real.
deixou de fazer perguntas à vigília no corpo,
passou a viver com os lábios um pouco entreabertos
e a mesma incerteza quanto ao vestuário.









fotograma e excerto de L'amour à vingt ans, de François Truffaut.
Pela manhã dentro esperei ontem,
diziam eles que não virias, supunham.
Maravilhoso dia, lembras-te?
Um feriado! - dispensa casaco.

Arsenii Tarkovskii




«Paranoia in B Flat Major»
The Avett Brothers


fotograma de Bleu, de Krzysztof Kieslowski.
J'aime toutes les couleurs, mais surtout le bleu. Surtout le bleu.





«Blue with Desire»
Zbigniew Preisner

fotograma de Bleu, de Krzysztof Kieslowski.

20 de Nov de 2009




«Eid Ma Clack Shaw»
Bill Callahan
(e eu nem acredito que este senhor me assinou um disco, perguntando-me se ana era com um ou dos énes.)

19 de Nov de 2009










«A pele que há em mim»
Márcia
(é favor não bater palmas. isto é bom demais para palmas.)
Adenda, depois de uma noite mal dormida:



À pérola que nasceu no coração de cada homem e que não se sabe a quem deixar ou o que dela fazer, proponho o maior dos destinos - que dê para jogarmos todos ao berlinde. Digam lá que não é uma boa ideia.
Eu não sei o que fazer com o que trago cá dentro. Algum de nós saberá?




«One dove» + «Her eyes are underneath the ground»
Antony & Johnsons

18 de Nov de 2009

podia ser fácil como fácil é para uma flor nascer por aí,
longe dos olhos, também morrer. fazer tudo certo.
chegar a horas, por exemplo, partir a horas.
não pensar que aquele pacote de rebuçados
faz parte dos gestos da infância arruinada. não pensar.
simplesmente ir, deixar-se estar, ser na corrente.
não atirar farinha para os olhos. não brilhar.
entrar num abraço. não dizer vou embora
para não ficar a esperança de ouvir fica.
não dizer nada. sorrir a horas, amar a tempo.
escolher o rebuçado mais bonito, marinho.
dar um beijo azul e respirar para dentro de alguém.
alguém que nos veja tal como somos.
nada, quase nada, e um pouco de fogo.



















fotografia de Marta Bevacqua.
O que quererá, efectivamente, Rimbaud ter dito com isso de estarmos condenados pelo arco-íris?
















Composição do pintor escocês Peter Doig.
Podemos não saber voar, mas todos temos por dever e por direito levitar. Umas vezes sós, outras vezes juntos. O rasgo da condição humana, para mim, resume-se à levitação, assumida por diversas formas: a artística, a afectiva, a intelectual, a material e, até mesmo, a quotidiana. É esta a lição do fotógrafo genovês Alberto Terrile, ao mostrar-nos nel segno dell' angelo. Esta levitação captada nas imagens pode partir de uma plausibilidade científica, como é explicado: o impulso que a potencia parte da diversidade da energia magnética e cinética. Porém, a plausibilidade sublima-se na beleza, esse tipo de beleza para a qual já não há explicação possível. Estamos já diante do rasgo.

17 de Nov de 2009

Dessa bela tarefa que é existir entre os pássaros que voam por nós humanos, nós, os condenados pelo arco-íris, assim nos falou Rimbaud, que sabia que qualquer vida, seja qual e como for, será sempre desmedida. Resta-nos sorrir, em paz, com pernas e braços para andar e envolver, e saudar a beleza de tudo isto. Ao fim de contas, apesar de não parecer, nunca deixaremos de ter a simplicidade das crianças quando abrem os olhos. Só mais tarde é que fazemos do espanto a vontade de viver e contar histórias, queremos avançar da infância ou, então, é o tempo que nos faz avançar e construir o para além do sentido. A criança não constrói, a criança vive o construído e inventa mundos maiores sem pedir nada em troca. Basta-lhe essa grandeza de imaginar. Ficássemos lá, nesse lugar sagrado de viver o espanto quando o é, nesse segundo deslumbrado, e, fico em crer, teríamos algo muito próximo da pureza da felicidade. Depois, como as crianças, correríamos sem pensar para onde, sem preocupações, pois saberíamos que a cada palmo de além haveria outros momentos de luz que nos dilatassem a fábula e o silêncio do coração.

















Fotografia do grande Adriano Baptista.

13 de Nov de 2009

Arranca corações\3


o tempo de rapariga heliocêntrica terminou
na hora exacta em que o telescópio obliterado
arrefeceu à janela onde esperava um feixe de luz
excepcional que ondulasse pelas cortinas.

o sol já não dilata o olho que,
com o outro, se fechou no escuro do quarto,
para dormir e acordar na mesma posição
como ponto lunar no céu
a bordar o desencontro dos hemisférios.
afinal, é a isto que chamam tentativa
e erro de paralaxe. recolho as mãos
das astronomias que não entendo,
preparo-me numa lágrima para o inverno.

o sol jamais trocaria o universo todo
por uma rapariga joeirada à meia-noite
e achada apenas de crateras,
com vénus, cruelmente aparecendo
e desaparecendo a cada segundo de íris,
a borrifar de sonhos o atlas do sangue.

os mesmos sonhos que me deitaram
por terra acolchoada a altas horas
para não gravitar contigo no grande espaço.







«Tonight the sky»
Sun Kil Moon
Estufa de sons\19



Se não estivesses aqui
o mundo seria apenas
a vestimenta do nada.
*
Não me perguntes
de onde me vem a facilidade
de te conhecer.
*
Tudo o que o anoitecer toca
fica mais consistente.
Tudo se lhe abandona
como se nada fosse.
*
Abrimos a tudo,
no mesmo instante,
no mesmo espaço.
Tornámo-nos
o logaritmo do espaço.



Eugène Guillevic
trad. Egito Gonçalves



Tu és a escala, a mão que embala, tens um rumo a seguir.

«Nada»
Jorge Cruz

12 de Nov de 2009

Poéticas\8

não me oiças. ouve-te no caminho.
não me oiças a pedir para te ouvires,
e também nisto não me oiças.
eu nada sei do poema, de poemas.
a máquina ferina do mundo
é barro quebradiço nas minhas mãos.
apenas li num desses grandes livros
duas linhas da biografia de Picasso
e disso fiz tudo o que sei.
começou por imitar os grandes,
acabou a desenhar como os pequenos,
como as crianças maravilhadas com cacos,
a elevar acima do sol a sombrinha
por onde todas as mulheres lhe ganhavam amor.
sim, também eu amaria alguém
por apenas um gesto de fascínio,
erguendo braçadas de mar e areia
nas toneladas que tu pesas vivo
além do equilíbrio que é procurado
em versos que não vieram
de nenhuma esquerda direita cima baixo,
mas de um lugar que és só tu.

11 de Nov de 2009

Da imensa ternura\32

dos incontáveis cometas dos olhos
só o satélite da tristeza ficou para alumiar
as sombras das palavras de hoje.
sobram cordas caligráficas,
torvelinhos de qualquer coisa mais,
responder aos porquês e porquês
que a cidade foi rolando pelo chão
juntamente com latas e copos vazios
ao vento que atingiu saturno
bem nos olhos. não nos vemos.
eu ainda estou aqui numa campânula
de noites a respirar baixinho.
o planetário, dizem, está vazio.
os homens já não querem estrelas e vias de imitação.
não sabem por onde recomeçar o universo.
também eu limpei o tecto do meu quarto
dessas luzes de brincar.
tenho medo do escuro, mas só do cruel,
do que nega a composição do corpo,
a possibilidade, ainda que remota,
de não enlouquecer apagado, sem saída.





























*
Da imensa ternura\31

em qual das gavetas arrumar
o fim de um sonho
a simplicidade de uma flor dobrada
a firmeza da insónia pelas paredes
o fechamento macio dos lábios
a milésima telha lá no alto
a absoluta falta de alguém
o nu a óleo agora deitado
o esboço de um passo horizontal
o aziago cobertor puído
a circunstância dos dedos
puxarem pouco mais que solidão?



«Kavita»
Red House Painters
*
Da imensa ternura\30

avisto o que não há, falo do que não existe,
invento um rosto para soprar a vela,
abro a gaveta à procura do maço prateado
e afundo-me no azul dum pequeno mapa
esquecido e baço a fazer-se gravilha.
o tesouro do fundo que seja apenas morte,
que me tire a mão da grande escala,
a transparência de nervuras da folha vegetal,
quanto quis passar a vida a limpo,
um cigarro, o maço, mais fumo
que se sobreponha ao fumo, por favor,
o ar da botija bojuda, os olhos abertos do destino,
o instante do poema a boiar na luz
da franca moeda alagada no peito
que avista, que fala, sem que exista,
que insiste em emergir assim à nossa boca.



«Hey, who really cares?»
Linda Perhacs

*

10 de Nov de 2009

Da imensa ternura\29

e, então, como um pássaro ferido,
rodou os braços pelo pescoço,
chegou-se muito e sussurrou-lhe uma imperceptibilidade,
como se faz em cenas finais de filmes,
- por dentro ia abrindo a tira de cabedal do estojo de pincéis,
abrindo a mão, apertando os tubos para a palma,
pensando queria tanto pintar-te o corpo -,
depois afastou-se, ajeitou a franja para a esquerda,
muito lentamente, sorriu para a matéria que rondava
em silêncio a testa reflectida na dele,
e, em câmara lenta, foi desaparecendo pela copa
da última árvore do caminho levantado no escuro
como ferida da terra entrando por domínios vazios.





«Dreamer»
Tiny Vipers
[era mesmo esta a música que tinha de estar aqui, neste nevoeiro. roubei mais uma vez esta menina. desculpa.]