prefiro não abrir o caderno onde escrevinhei a ressaca
à frente do rio durante horas e adoeci
para te falar das águas que sobem pelo casco do dia
e da falta que me faz estares nesse lugar
onde ambos não estamos nem nunca estivemos
e que a peliça clara não chega para abrigar
da hora de ponta por onde passa toda a gente
menos tu e eu. eu também não estou ali,
mas na margem do nosso sétimo dia.
a pressa por que fui tomada imobiliza-me
como a ponte desatravessada
onde já fui carro num desastre até ao sul.
suponho que o coração cintou a cabeça
de cristo, do lado de lá, no minuto em que chegaste.
podia não tornar o poema nisto,
afinal a tua chegada representa algo palpável,
algo bom, como um líquido que sobe
pela palhinha e nos inunda de felicidade,
mas depois acaba e o que resta
é aquele gomo de limão nos destroços gélidos
no fundilho cristalino das memórias.
espreito a paisagem, volvo para o cigarro,
confirmo que o sétimo dia se cobriu
como seria esperado pelo desenho de noé sendas.
será preciso lembrar que eu,
ao contrário disto, tenho um corpo
para além dos olhos, das mãos, da boca?

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fotografia de Filipa Castro.