Nova casa: pátio alfacinha.
Já tenho como finalmente evitar dizer
tirem os sapatos do lugar, dêem espaço,
o espectáculo está a decorrer com normalidade.



Deambulo com um casaco preto
e a cidade é umas das coisas necessárias
para que bata latas e portas e cabeças
e vire bem todos sobre a minha tristeza
de cinquenta cêntimos de paisagem
e uma esperança de águas-furtadas.



Procuro descansar muitas vezes,
entre elas, o olhar sobre bolas de luz,
fazer de conta que não sei como dizer
tirem o lugar daqui para ver no que dá.



Os silêncios calçam bastante mais
do que o tamanho da boca.
Este desespero mínimo de colmeia
no centro da barriga é exacto
e bebo o meu leite para fingir
que não estou, antes, a beber esse.
Porque é esse e não este
que me dá brancas e mata o ponto,
que manda a manhã das manhãs
como Daniel atirado à sua própria boca.
Agora sou eu e a inocência.
Não luto, bebo leite.
Diário das proximidades e das suas distâncias

Há muito tempo que estas mãos não escrevem. Parece que ao vocabulário foram sendo subtraídas as formas de instaurar um mundo num discurso. Mas a estrada pôde, de novo, dar-lhes a sensação de que haveria ainda um prazer incumprido na junção de ideias. Confusas, como sempre, mas passíveis de expressão. A poesia era a única esteira onde o sono se fazia sob céu. O céu está pontilhado por pequenos olhos que vêem, de longe, o perto. Que indicam. Contudo, para nós, o que vemos são estrelas. Vivem em mudança de intensidade de luz, a estalar no infinito até à morte astral. De tal forma é a distância, que talvez não cheguem para nos apercebermos de que indicam, de tão espartilhado é o seu foco sobre tudo e todos. Mas indicam. Agora há mais lugares onde o sono escorre como uma mínima lágrima silenciosa que o escuro não denuncia, que abre uma janela para o longe que vê o perto, de mansinho para não acordar o momento dela secar e se diluir na pele.

Tenho-me perguntado sobre muitas coisas. Entre elas, o que é o perto, o estar perto de, o que está perto e quem, também, o estará? Com quem partilhar a fome, mais ainda do que a comida, a saciedade? Pois que essas têm um fim permanente e determinado, controlável, ao passo que a fome, a grande fome, não, exige o contínuo andar nesse estado, exige o ilimitado de cada um, a incapacidade de pôr um termo. Quando e como o fascínio toca nas cordas certas de alguém, sobretudo nessa aguda que expande o som para a cavidade mais recôndita de cada homem: a paixão pela orgânica da bondade, pela entrega da moeda mais perfeita, a mais íntima, na palma do desconhecido? Que segredo contar que quebre paredes e que, simultaneamente, prepare, como dedicado aprendiz, a argamassa que colmate as fissuras do espanto de ter sabido o que não se podia contar? A poesia é o calor que esmaga e une, não está só nos livros, na desarrumação da vida a um ou a muitos. Ela está onde a memória começa a perder sentido, na rectidão do absoluto desamparo.

Nessas horas gostaria de pedir perdão a deus, dirigindo-me à boca do homem mais belo e dizendo, lá para dentro, perdão por estar aqui de pé a tremer contigo, a puxar o fio dos sentidos, a fazer uma teia de luz por cima dos telhados. Eu jamais serei a prisão. Perdoa-me não ser capaz de dançar quando não faz vento. Perdoa a minha teimosa afectuosidade, o silêncio não ser puro silêncio como gostaria, mas antes um germinar de maravilhas e miniaturas de objectos e sentimentos debaixo da sua terra. O meu dedo que ao pousar num ombro tem visões de futuro, por esse não pedirei. As mulheres, meu deus, são assim. Vivem cada dia a pensar no seguinte. Mas é essa a sua forma de estar no presente. Integralmente e independemente de haver um dia que se siga a esse. Pensam no espelho para o poderem ignorar. Mas tem de estar ali, esquecido a um canto, para que saibam que, se quiserem, poderão ver o rosto do amanhã, qual a sua feição, entendes?
Depois vêm as doçuras da irresponsabilidade. Aquelas que tiram todos os pesos dos ombros, todos os seus mosaicos em cacos de ouro. O rolar mágico dos olhos como o dos berlindes de tempos maiores que o tempo, ziguezagueando o olhar em redor à medida que o chão vai crescendo em ruas, em estradas, em casinhas de muitos inquilinos, em privacidade. O simples deixar-se estar aqui porque é bom estar (o espelho a um canto, quase esquecido). Porque eu quero que inventem o vento só para dançar. Dane-se a enciclopédia do amor cortês pela palavra. Corto as folhas para passar à frente todos os passos, para que reste dançar, apenas dançar sem qualquer aprendizagem, sem qualquer passo em falso ou preocupação de os errar. Apenas um corpo em movimento que se reencontra numa beleza esquecida (o espelho reaparece a um canto insuspeito) num movimento de escrita onde a estrela incidiu. Um movimento que foi visto em andamento de primavera, pintando as paredes onde, já cansado, se encostou para sorrir.


Great Lake Swimmers + I Saw You in the Wild

A força de uma adaga espera por ti à esquina,
numa fonte com vista para o rio,
num rapaz encostado à parede suja
que pergunta quem sou, quem és
como pergunta num filme mudo
o dia à noite, a noite ao dia.



Uma adaga brilha por ti no bolso.
preparou-se pacientemente, sabe-lo,
a enrolar cigarros, a fazer tempo,
a fazer dos teus amigos os seus amigos,
dos teus assobios aqueles por que o cão,
se o tivesse, responderia a correr
por todas as orlas da grande praia.



Sabe de cor o teu verso preferido
e a hora exacta de o cravar no coração,
rápida e sem dor, embora sangre.
o sangue não é a prova, é a testemunha
que quis ficar para sempre, o gosto de ti dito
da maneira mais simples que já ouviste,
a vertigem da adaga a resvalar para o chão
depois de desferida.



O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.






Breaking the waves



Nick Cave + To be by your side


1967, ao cair do pano no azul, deixei-te a sós com as flores.
Subtraindo os cumprimentos e as fórmulas finais,
Inglaterra continuaria a ser uma ilha pequena
se comparada com os mares que o mar pudesse levar
na âncora de um morto içada por pirata de águas doces
mormente pareçam mar. É da angústia, expliquei.
Havia um suspiro próprio para esses dias
e tu não podias ouvir. Inglaterra abafava-os com os parques
e eu usava lenços nesses dias. O importante era a lua
que insistia em crescer ao contrário,
a favor da forma do nariz. Era muito importante
poder ajudar-te nesses dias a compor arranjos florais,
era a forma de me esquecer destas neurastenias
de estores baixos, mas não até ao fim. De frinchas.
Depois, poderia ir com as línguas de sogra do Carnaval
e fazer-te uma surpresa, mas não havia, nem nos chineses.
Era Dragão e Cabra e Cão também. O céu ameaçava sol,
sempre ameaçou. É por isso que quando sorrio
tu podes acreditar de novo na tua mamã,
quando te embalava e dava de mamar,
e eras o centro do mundo. É fácil agora, e sempre soubeste porquê,
falar que a Via Láctea é uma esperança que se depositou
sobre as nossas cabeças e que se choro, choro com razão.
Sou macaco, o guerreiro que viu a andorinha
na última trave do banco do jardim dizer hoje não voo.
A andorinha, obviamente que é uma mera ilusão,
uma asa partida como sete anos de espelhos.
Eu agora escrevo depressa. A telegrafia é a minha dor.
Tem muitos cortes. É paga a peso de ouro. É não nos termos.
É uma jarra de flores, 1967, pós-mortem, de pós astrais,
a fita negra de Dona Virginia e a sua palidez.
Perguntar-te com que então a tua beleza não se foi,
não irá nunca, está aí nesse papel todo rasurado
como um mapa do tesouro e uma incógnita,
um colarzinho de pérolas enfiadas, ano após ano,
pela madrinha e um triciclo contra a parede.
Ai, meu amor, que tontura, que tolices digo.
Os teus poemas ponho-os eu na parede
como uma adolescente de terceiro ciclo
portuguesa. Depois apago as luzes, ponho música,
atiro-me de costas para cima da cama e Vejo-os.
As inglesas colocariam o livro como um quadro.
Não se esqueça a nota bene de dizer por mim
que não é preciso ir às compras, há pão que chegue
e que os pintainhos fugiram todos
para o quintal da frente, os piratas. Fiquei emocionada.
Os nossos dedos também fogem para a vida.
Música & Livros


Ashley Brooke Toussant + Way Up in the Tree
Descobri esta cantautora de Chicago e fiquei encantada com o tema - já o vídeo oficial é um pouco palerma, apesar dos cenários e do guarda-roupa -, ainda que não acrescente nada de novo ao género. É bonito, basta, e é uma boa banda sonora para a sublimaçã0 (aqui termo da física) dos livros que ando a ler. Do sólido à evaporação e, muito raramente, vice-versa, como o iodo.
Teu corpo, se é o caderno que se guarda agora em gaveta,
que me ensine como resguardar palavras que nele escrevo
ou o emudecimento contigo de nossas facas em plumas,
a revigorar de um sopro todas as causas perdidas,
e a adormecer nessa dobra a vapor de cotovelo,
sem temer que deixe de fora a cauda de teu nome,
se é ela que me desce ao queixo pelo rosto,
que adivinha do mais sóbrio de pavão fémea
minha beleza de perfil em langor dourado
certos dias como um dedo que passa e fica.

Que me entrelace nos dedos um lápis branco
e venha delinear-me os olhos, que veja o que vejo.

Dias mortiços, bases de copos alagando a cozinha,
o grito dos frutos na terrina, o terraço peninsular,
as raparigas que não ouvem música
numa orquestra de silêncio dessalado.

E eu aqui no meio, num chorinho larval muito baixo,
rodeada por argolas de cebolas, translúcidos anéis,
teus milenares anéis de planeta a gravitar no quotidiano,
prostrada, de cotovelos na mesa, absorta, buraco negro,
no bruxoleio das sombras das cadeiras.
E lembrar-me que o tio chama a isto bicicletas paradas,
das que se usam na sua casa de baba, enquanto se dirige
de ferrinhos para se juntar à orquestra dos mosaicos.

Volto o olhar para o estampado do copo,
conto o tempo daqui ao fim do corredor,
do fim do corredor aqui,
reparo como o tecto vai descendo
para que fique hermeticamente fechado
o século que demora a levar a água aos lábios,
como se a mão do teu consentimento
pisasse o telhado e me viesse prensar
o pensamento num planisfério
e juntos entrássemos na gaveta
que a noite abriu às estrelas.