No meio da crise

Diz Cioran que qualquer livro que seja escrito deve ser feito como se contássemos o inconfessável. O mesmo se aplica a tudo o que é escrito e passível de ler. Há dias em que simplesmente temos de confessar o inconfessável, ainda que cifrado pelo mais ou menos óbvio para quem se encontra do outro lado do confessionário. Confessa-se sobretudo o que não aconteceu mas que não deixa de ser menos verdadeiro. Quanto mais poético, mais verdadeiro, anotava alguém no cabeçalho das suas proezas ao respirar. Por aqui se pode entrever os olhos baixos, fixos no pensamento, a contrição dos nefelibatas, a ortografia exasperada de uma via profanada, o baixo ventre do banho nocturno e a mancha azulada no cotovelo que foi primeiro à água antes do resto do corpo como os cães alentejanos provavam antes a feijoada de cogumelos da minha avó: para que nós não morrêssemos, como se houvesse menos crueldade na morte canídea. Há dias em que a escrita é a mais natural das respostas face à crise, como naquele título exposto na Poetria onde tirei uma fotografia a fazer poses beat a brincar. Um beijo no meio da crise. Mal seria se se tivessem suprido todos os gestos de pronto-socorro em tempos destes. Nunca falo de política. O meu silêncio é o meu protesto. Quando uso termos como democracia, uso-os em sinal de reverência por cada homem e do seu mais puro convívio, em franqueza e verdade, uma dança social em que não se aprende os passos, porque cada passo é próprio e irrepetível, embora não choquem com o próximo, com o par, se virmos tudo de satélite - os erros eliminam-se com a distância, à distância tudo parece um pouco perfeito. É este o meu sonho democrático: o poder da dança pura, liberta num movimento que se autogere, na clemência do grande coreógrafo, o homem abstracto: o homem no seu todo perpassando por todos os séculos. E os meus sonhos deveriam ser fonte de alegria, deveria estimá-los como se contemplasse uma face amiga de olhos grandes e meigos. Mas há dias em que a escrita a encobre de fumo, de nevoeiro, uma massa de um grande conjunto de volutas que libertamos da boca, da mão, do espanto de se estar vivo com uma data de coisas inconfessáveis que ora pesam, como âncoras que afundam toneladas de navios, ora são leves, tão leves que se tornam inapreensíveis e explodem em pequenas luzes numa única palavra. A palavra que, acredito, talvez dê o tom para a tal dança dançar assim. Entrechocamo-nos, pisamo-nos, não sabemos acompanhar, mas, no fim, na única forma de o fazer, como o poeta disse, o nosso coração bate.

0 comentários:

Enviar um comentário