A força de uma adaga espera por ti à esquina,
numa fonte com vista para o rio,
num rapaz encostado à parede suja
que pergunta quem sou, quem és
como pergunta num filme mudo
o dia à noite, a noite ao dia.



Uma adaga brilha por ti no bolso.
preparou-se pacientemente, sabe-lo,
a enrolar cigarros, a fazer tempo,
a fazer dos teus amigos os seus amigos,
dos teus assobios aqueles por que o cão,
se o tivesse, responderia a correr
por todas as orlas da grande praia.



Sabe de cor o teu verso preferido
e a hora exacta de o cravar no coração,
rápida e sem dor, embora sangre.
o sangue não é a prova, é a testemunha
que quis ficar para sempre, o gosto de ti dito
da maneira mais simples que já ouviste,
a vertigem da adaga a resvalar para o chão
depois de desferida.



O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.






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